Reino do sol

Centro Eclético da Fluente Luz Universal Caboclo Águia Dourada, denominado Reino do Sol, iniciou suas práticas no ano de 2002 na região de Parelheiros, município de São Paulo.

O Reino do Sol e o estudo mediúnico

A história da sinuosa relação do Santo Daime com a Umbanda foi recuperada em minha dissertação de mestrado, Tambores para a Rainha da Floresta. Na minha trajetória pessoal dentro das práticas daimistas pude vivenciar todas as ambiguidades e contradições que essa relação carregava. A Umbanda possui um lugar dentro da cosmologia daimista, embora cheia de recusas e resistências, de histórias mágicas, e de uma aceitação ora subentendida, ora recusada ou exaltada. Lugar este que o Reino do Sol foi chamado a ocupar e para o qual deu sua contribuição.

Hoje, olhando em perspectiva, posso compreender com mais clareza o quanto os elementos espíritas e afro brasileiros estão incrustrados na alma brasileira – às vezes para o bem, às vezes como sombra. Seu poder de atratividade, no entanto, povoa nossos olhares. Um mundo mágico, espírita, relacional, mestiço, agregador, includente: tal é o cenário em que nos movemos, muitas vezes inconscientemente, e que emoldura nossa experiência espiritual.

Foi em torno do estudo das difusas práticas que denominamos umbandistas que o Reino do Sol nasceu. Práticas essas que dão espaço para elementos então marginais no universo daimista – como tudo o que implica a experiência mediúnica, o lugar do corpo, a questão da separação de gêneros, entre outros. É inquestionável a aproximação de perspectivas marginais entre a Umbanda, o Santo Daime e o mundo alternativo, que resultou em uma ressignificação tão particular e metropolitana quanto o Reino do Sol.

Não se trata de um incansável questionamento da Tradição, mas sim da permissão para que o experimento renovador, que se encontra no cerne da vivência mística, se relacione livre e dialeticamente com a Tradição, permitindo dessa fricção o encontro com o que é verdadeiramente essencial e livre para o espírito.

 A força da Renovação no Reino do Sol

O Reino Sol escolheu como identidade seguir parte do calendário ritual oficial deixado pelo Mestre Irineu; desenvolver suas Giras a partir da referência da Umbanda, como uma devoção aos Orixás e às Linhas que os representam; abrir espaço para o entendimento do profundo aspecto espiritual presente na manifestação artística e corporal; e vivenciar outras múltiplas possibilidades que a experiência com a Ayahuasca possibilita, como verdadeiros exercícios espirituais.


Trabalhos – Umbanda – Vivências – Arte – Peregrinações

 Os Trabalhos

Como dissemos, o Reino do Sol nasceu da vertente daimista responsável pela expansão do Santo Daime, aquela que tem Sebastião Mota de Melo como líder espiritual. O carisma do Padrinho Sebastião vinha junto com grande receptividade para o novo. Ao acolher jovens alternativos oriundos do Sudeste Brasileiro em sua primeira comunidade nos arredores de Rio Branco no Acre, abriu-se para uma intensa troca de visões e práticas que levaria o Daime para fora da Amazônia. Trouxe consigo os rituais estabelecidos pelo Mestre Irineu e introduziu alguns com os quais buscou dar forma à sua aproximação com o universo espírita umbandista. Giras com viés umbandista já eram praticadas no Céu do Mapia – AM, desde quando o Padrinho Sebastião era vivo. Padrinho Alfredo, seu sucessor, manteve e aprofundou os estudos mediúnicos e procurou dar forma ritual ao profundo interesse pela Umbanda que chegou junto com a expansão.

As Giras

As Giras no Reino do Sol tiveram início antes de sua constituição. Testemunhei, como médium que se viu surpreendido pela irrupção – em mim – da mediunidade de incorporação nos trabalhos de Daime, o desconfortável lugar que ocupava a Umbanda no imaginário daimista. Abrir os trabalhos de Gira, em um molde próprio, foi tarefa que visava constituir espaço de amparo à experiência mediúnica, em vista da resistência que ela provocava nas casas instituídas. Passei a abrir os trabalhos de Giras, com as quais a Umbanda entende ser possível o desenvolvimento mediúnico. Ao redor deste trabalho, um grupo de interessados na mediunidade vindo de todas as casas existentes, reuniu-se para estudar as chamadas da Umbanda e seus tambores. Desenvolveram-se estes trabalhos iniciais, agregando um crescente número de interessados, enquanto eram recebidos os últimos hinos do meu hinário Reinado do Sol e abria-se o meu próximo hinário: o Primeira Lição.

Sete Ciclos

Iniciei minha jornada daimista junto ao Glauco, de quem recebi minha estrela, nos primórdios do Céu de Maria. Foram anos de mergulho, intenso aprendizado e desenvolvimento mediúnico até chegar o momento espiritualmente propício à abertura de trabalhos, então denominados Trabalhos dos Orixás. Neste local, gentilmente cedido pelo Céu da Nova Era, recebi a obrigação espiritual a cumprir: sete Ciclos de sete Giras abertas cada. O primeiro desses Ciclos foi o da Formatação, em meio ao qual recebi o hino Casa Própria (hinário Primeira Lição) – com uma instrução clara e inesperada. Como afirma o nome do hino, pedia que buscássemos um espaço próprio para sediar nossas cerimônias, que veio a ser uma chácara em Parelheiros-SP. Corria o ano de 2001. Os seis Ciclos seguintes nos tomaram sete anos, ao fim do qual o Reino do Sol frutificou vigoroso, e ali permanecemos por 13 anos.

Nossa Sede atual

A sede atual do Reino do Sol se localiza em Mairiporã, em um sítio adquirido por nós, onde estamos desde o início do ano de 2016. Ali construímos nossas primeiras instalações, em uma linda área rural de montanhas. Temos uma boa jornada pela frente, preparando nosso espaço para o recebimento de irmãos que, sensibilizados pelas emanações do Caboclo Águia Dourada, nos visitam em busca de aprofundamento e desenvolvimento. Ali o Reino do Sol cria suas raízes para uma nova etapa de nossa caminhada. É o que estamos fazendo, entregues ao fluxo com que a espiritualidade nos leva.

Autoconhecimento

Nunca é demais destacar aquele que para nós é um princípio espiritual fundamental: a busca do autoconhecimento. O desdobramento desse olhar leva a caminhos que nos diferenciam profundamente de muitas denominações religiosas, uma vez que não estamos focados no Além, e sim, no desenvolvimento de ferramentas pessoais para a realização de uma existência plena aqui e agora, nessa encarnação. E espiritual porque? Porque reconhecemos essa dimensão presente em nossa jornada nessa Vida, na forma de um nível transcendente, expressos naquelas qualidades que chamamos de supraconsciência. Em termos práticos, tal olhar nos leva à uma atitude de busca e pesquisa que não cabem na simples repetição de fórmulas conhecidas. Experimentação aqui é utilizar-se das ferramentas fornecidas pelas Tradições na pesquisa de um Caminho continuamente explorado.

Nossos Caminhos

O encontro entre a Umbanda e o Daime que se deu no Reino do Sol abriu um campo de possibilidades rituais. Em primeiro lugar pela plasticidade presente na Umbanda, no sentido de sua diversidade e multiplicidade. A Umbanda nos ofereceu um campo de exploração rico e multifacetado, em suas Sete Linhas e em todos os seus Orixás, cada um representando uma força da natureza, um arquétipo presente em nossa existência, um mundo de atitudes, elementos, cores e vibrações. Neste lugar a Arte e a Religião voltaram a se encontrar – sempre debaixo dos ensinamentos que nos trás a Sagrada Medicina.

 Diversidade Ritual

Isso faz do Calendário de cerimônias e práticas do Reino do Sol uma identidade bastante particular de busca. Seguimos do Mestre Irineu, o Trabalho de Concentração e Hinários, honrando seu legado. Realizamos, com a contribuição do Padrinho Sebastião e do Padrinho Alfredo, enquanto fardados da Doutrina, trabalhos de Estrela e de São Miguel – já com a forte presença da Umbanda. Temos um calendário dedicado às Giras e outras cerimônias em que nosso estudo voltado aos cultos afro-brasileiros se manifesta – incluindo rituais na mata como a Roda de Caboclo, Giras no mar e em outros pontos de força da natureza. Anualmente fazemos caminhadas coletivas em peregrinação de vários dias, como uma outra oportunidade de meditação e cura. Todo um leque de cerimônias que nos identifica como Escola Espiritual, com o qual nossa comunidade vai construindo a limpeza dos canais com o Eu Superior, promovendo seu autoconhecimento e o desenvolvimento da mediunidade.

Mestre Irineu e Padrinho Sebastião

Iniciamos nossas atividades vinculados à vertente do Santo Daime inaugurada pelo Padrinho Sebastião, e que por sua vez tem suas raízes assentadas no legado do Mestre Raimundo Irineu Serra, que no início do século passado sintetizou de diversas matrizes uma prática religiosa que tomou forma em Rio Branco, no Acre. Padrinho Sebastião, após o falecimento do Mestre, foi um dos propagadores de sua obra, agregando novos elementos e alternando ênfases existentes na cosmologia inaugural, criando condições para que o Santo Daime transbordasse das fronteiras amazônicas e se desenvolvesse em todo o Brasil e em muitos países do mundo.

O Santo Daime com a Umbanda

Um dos elementos que ganhou centralidade nas mãos do Padrinho Sebastião foi o estudo da Umbanda. O Reino do Sol, reconhecendo suas raízes nestes dois líderes visionários, nasceu da proposta de viabilizar à esta Umbanda, nascida do encontro com o Daime, maior espaço de desenvolvimento – aproveitando as direções apontadas pelo Padrinho Sebastião e navegando na perspectiva eclética com que o Mestre Irineu deu seus primeiros passos.

A expansão do Santo Daime

No final da década de 80, quando nasceram, as grandes referências daimistas fora do Acre eram as primeiras três igrejas fundadas no Sul (em Brasília, no Rio de Janeiro e em Visconde de Mauá).

O Céu da Montanha, sediada em Visconde de Mauá, fundada por Alex Polari, foi para os paulistas o modelo mais próximo a ser seguido, e onde era possível acompanhar grandes trabalhos de hinários.

Com o advento de sua expansão pelo Brasil e depois pelo mundo, o Santo Daime chegou em São Paulo pelo desenvolvimento paralelo e concomitante de dois grupos, que se constituíram em igrejas: Flor das Águas – a primeira delas – e Céu de Midam.

Da igreja Flor das Águas surgiu o Céu de Maria, fundada por Glauco Villas Boas – que viria a ser, em seguida, a maior igreja de São Paulo –, assim como o Céu da Nova Era, que se propunha como continuidade da Flor das Águas. Parte constitutiva desta última criou o Céu do Vale, em Pindamonhangaba. Do Céu da Montanha nasceu o Céu da Lua Cheia, e do Céu de Midam surgiu o Céu da Mantiqueira, entre outros grupos que se desenvolveram em maior ou menor grau.

Padrinho Alfredo, filho e sucessor do Pad. Sebastião, responde à complexidade que teve origem na expansão agregando novos rituais. Foi sob seu comando que a Umbanda se legitimou na cosmologia daimista.

Nossa visão

O Reino do Sol nasceu a partir da minha filiação inaugural ao Céu de Maria, onde iniciei meus trabalhos no Santo Daime. Não foi sem surpresa a constatação posterior do ecletismo que constituía as matrizes do Santo Daime, dentre as quais me sensibilizaram as raízes afro-brasileiras – particularmente a Umbanda.

Espiritualidade versus religião

Enquanto grupo institucionalmente independente, reconhecendo e honrando sua história, o Reino do Sol hoje adota a perspectiva de Escola Espiritual, atento ao diálogo que faz da relação espiritualidade versus religião, um foco de atenção e cuidadoso estudo.

Transcendência e autoconhecimento

Ainda que adotando a dimensão transcendente como constitutiva e central da experiência humana sobre a Terra, entendemos nossas práticas como o desenvolvimento de ferramentas que visam dotar o indivíduo da capacidade de realizar uma trajetória de autoconhecimento, plena e potencializada. Ou seja, mais do que apontar mapas de territórios da vida no Além, nos ocupamos das questões que possam tornar a existência uma experiência integral e realizada.

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